Trompete, saxofone, trombone

Três instrumentos de sopro
como funcionam e uma breve história sobre eles

TrompeteSaxofoneTrombone

Três instrumentos que passam a noite inteira resolvendo o mesmo problema — como controlar uma coluna de ar — de três jeitos que não conversam entre si. Um levou trezentos anos para conseguir tocar uma escala. Outro foi inventado por uma pessoa só. O terceiro está pronto desde o século XV. Desmonte os três.

Leia a Reportagem interativa

Trompete

pistões
1 2 3
em repouso

Antes do primeiro chorus

Todo sopro é a mesma ideia repetida: um tubo, e um jeito de fazer o ar dentro dele vibrar. O tubo não amplifica o sopro — ele escolhe. De todas as frequências que a vibração produz, só algumas cabem inteiras lá dentro. Essas são as notas que saem.

Um tubo de comprimento fixo toca um punhado fixo de notas. Para tocar o resto, é preciso mudar o comprimento. E é exatamente aí que estes três param de ser o mesmo objeto.

São duas perguntas. O que vibra? Os lábios do músico, ou uma lâmina de cana. Como se muda o comprimento? Somando trechos fixos de tubo, escorregando uma vara, ou abrindo buracos na lateral.

Três respostas de engenharia — e três histórias de gente que descobriu o que fazer com elas.

O tubo não amplifica o sopro. Ele escolhe.

I

148 cm de tubo

Trompete

Em 1928, doze segundos de trompete sozinho mudaram o assunto do jazz. Cem anos antes, o mesmo instrumento não conseguia tocar uma escala.

Chicago, junho de 1928

Doze segundos sozinho

A gravação de West End Blues começa sem banda. Louis Armstrong entra sozinho, despejando uma cadência de doze segundos que ninguém pediu, e quando o resto entra o jazz já mudou de assunto: deixou de ser música de conjunto e virou arte de solista.

O que torna isso estranho é a data. Cem anos antes, esse instrumento mal conseguia tocar uma escala — e o que estava entre uma coisa e outra não foi um músico, foi uma peça de metal do tamanho de um dedo.

Este capítulo é sobre essa peça.

O bocal

Não existe palheta aqui

Não há nada vibrante dentro de um trompete. O que vibra são os lábios, apertados um contra o outro dentro desta taça, abrindo e fechando centenas de vezes por segundo e picotando o sopro em pulsos. O instrumento começa no corpo do músico e o metal é o resto da frase.

É por isso que trompetista fala em chops como quem fala de condicionamento físico, e por que a embocadura de cada um soa diferente na mesma nota. A taça e a garganta moldam esses pulsos: rasas puxam o brilho, fundas devolvem um som largo e escuro.

Trocar de bocal muda mais o som do que trocar de trompete.

O instrumento começa no corpo do músico. O metal é o resto da frase.

1815

Três pistões, e o bebop fica possível

Sem pistões, o trompete só tocava a série harmônica: no grave, saltos enormes — dó, sol, dó, mi. Bom para fanfarra militar, inútil para melodia. Foi por isso que ele passou séculos como som de corte e de sinal, e que os barrocos tiveram que escrever no agudo extremo, onde as notas ficam próximas, para arrancar dele alguma linha cantável.

O pistão resolve por combinatória: cada um desvia o ar por um trecho extra de tubo que baixa a nota em um tom, meio tom ou um tom e meio. Sozinhos e combinados, os três cobrem os seis semitons que faltavam.

É um sistema de três bits. E é ele que, um século depois, permite que Dizzy Gillespie toque frases na velocidade que o bebop exige — porque três dedos são mais rápidos que qualquer outra solução mecânica já inventada para um sopro.

Um sistema de três bits — e é ele que faz o bebop caber na mão.

A campana

Projetar, e recusar a projeção

Um tubo estreito e o ar livre são meios muito diferentes. Sem uma transição, quase toda a energia bateria na saída e voltaria para dentro. A abertura exponencial da campana é essa transição — e ela não trata todas as frequências igual: quanto mais aguda a onda, mais direcionada ela sai.

É daí que vem a capacidade de atravessar uma big band inteira. Dizzy empenou a dele em 1953, depois de alguém cair em cima do instrumento numa festa, e resolveu manter: apontada para cima, ele se ouvia mais rápido.

Miles Davis fez o movimento oposto. Enfiou uma surdina Harmon sem o tubo, encostou o microfone e recusou tudo o que a campana foi construída para fazer. O resultado é o som mais reconhecível do jazz moderno — feito contra o projeto do instrumento.

Nova York, 1959

Miles Davis, ou tocar menos

Kind of Blue foi gravado em duas sessões, com esboços em vez de partes escritas e quase nenhum ensaio. A ideia era retirar: onde o bebop empilhava um acorde a cada dois tempos, So What deixa uma escala só durar oito, dezesseis compassos. Não sobra grade para correr atrás — sobra espaço, e é preciso ter o que dizer nele.

A decisão musical tem uma versão mecânica exata, e ela está no instrumento. Registro médio, sem vibrato, poucas notas, e a surdina Harmon sem tubo colada ao microfone. Gillespie pediu à campana que atravessasse uma big band inteira; Miles pediu à campana que calasse a boca e passou a tarefa de projetar para o microfone. A partir dele, a eletricidade do estúdio faz parte do instrumento.

E ele repetiu o gesto a vida inteira. As sessões do Birth of the Cool, em 1949 e 1950, tinham trocado o brilho da big band por um naipe de câmara. O segundo quinteto, formado em 1964 com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, dissolveu a forma fixa do tema por dentro. Em 1969, Bitches Brew jogou tudo isso em cima de um estúdio de rock, e nos anos 1970 o trompete já saía por amplificador e pedal de wah-wah.

É um instrumento sem nenhuma peça nova em cento e cinquenta anos, usado cinco vezes para mudar de assunto. O que mudou, todas as vezes, foi o que ele decidiu não tocar.

Gillespie pediu à campana que atravessasse a big band. Miles pediu que ela calasse a boca.

Onze peças

Tudo isso desmonta

Bocal, tudel, bomba de afinação, três pistões, três bombas de pistão, o corpo das caixas e a campana. Cada caixa é usinada com folga de micrômetros: o pistão precisa cair rápido e ainda assim não vazar ar.

Gire, clique nas peças. Nenhuma volta de tubo está ali por estética — cada uma existe para acrescentar um comprimento específico.

A linhagem

De Armstrong ao coreto

Depois de Armstrong e Gillespie veio Clifford Brown, com uma articulação limpa que virou régua; depois Lee Morgan e Freddie Hubbard, que praticamente definiram o som da Blue Note nos anos 1960; depois Booker Little e Woody Shaw, que empurraram a harmonia adiante antes de morrerem cedo demais.

No Brasil, o trompete tem outra biografia. Cláudio Roditi e Márcio Montarroyos levaram o instrumento brasileiro para o circuito internacional, mas a história mais importante é anterior e mais coletiva: o trompete é a linha de frente do frevo e o instrumento das bandas de música e filarmônicas.

No interior do país, essas bandas foram por gerações a única escola formal de música ao alcance de quem quisesse aprender. Muito músico brasileiro leu sua primeira partitura num coreto, num instrumento emprestado pela própria banda.

E o trompete brasileiro tem repertório próprio: Silvério Pontes tocando choro e frevo ao lado do trombone de Zé da Velha é uma linhagem que não passa por Nova York em momento nenhum.

Retratos

Quem fez este tubo falar

Louis Armstrong tocando trompete, de terno claro, com um lenço branco na mão que segura o instrumento.

Armstrong em 1953 — vinte e cinco anos depois dos doze segundos de West End Blues, e ainda com o lenço na mão. Não era adereço: ele suava tocando, enxugava o rosto entre as frases, e aquilo virou parte da silhueta tanto quanto o sorriso.

Repare em como os dedos caem nos pistões. As três hastes que este capítulo inteiro tentou explicar cabem debaixo de uma mão só — e é essa economia que faz o trompete ser rápido. Repare também na boca: tocar no agudo por décadas cobra caro, e Armstrong conviveu com feridas no lábio a vida inteira sem nunca abrir mão do som que todos depois dele tentaram copiar.

Louis Armstrong, 1953. Foto: fotógrafo do New York World-Telegram & Sun — Library of Congress, domínio público, via Wikimedia Commons.

Dizzy Gillespie de boina e óculos redondos, sorrindo, com o trompete apoiado no braço.

Gillespie em 1947, fotografado por William P. Gottlieb — o repórter que documentou quase todos os rostos citados nesta reportagem e depois colocou o acervo inteiro em domínio público.

O trompete aqui ainda é reto. A campana torta, o traço pelo qual ele é reconhecido até hoje, só apareceria em 1953, por acidente, e virou escolha quando ele percebeu que gostava de ouvir o próprio som chegar mais cedo. Fora isso: um instrumento de série, três pistões, e a velocidade de frase que obrigou o resto do século a correr atrás.

Dizzy Gillespie, Nova York, c. maio de 1947. Foto: William P. Gottlieb — Library of Congress, Music Division (gottlieb.03141), domínio público, via Wikimedia Commons.

Miles Davis tocando trompete num palco de festival, de boné e óculos escuros, cercado de teclados e bateria.

Miles Davis no North Sea Jazz Festival, em Haia, julho de 1984 — vinte e cinco anos depois de Kind of Blue. O palco é elétrico: teclados empilhados à direita, guitarra atrás, bateria à esquerda. No meio disso tudo, o objeto mais antigo em cena é o que está na mão dele: três pistões, um sistema que não muda desde 1815.

Olhe a campana. Pintada de preto, com o nome dele escrito em cursiva, virada para dentro do palco em vez de para a plateia, e com a haste de um microfone presa na borda. É a decisão do capítulo inteiro, agora em forma de hardware: desde a surdina Harmon dos anos 1950, projetar deixou de ser tarefa do metal. O metal faz a nota; a eletricidade faz o resto do caminho até o público.

Miles Davis no North Sea Jazz Festival, Haia, 15 de julho de 1984. Foto: Rob Bogaerts / Anefo — Nationaal Archief, CC0, via Wikimedia Commons.

Fanfarra escolar desfilando numa rua de paralelepípedos de cidade pequena, com moradores assistindo da calçada.

Sete de setembro de 1971, Conceição dos Ouros, sul de Minas. A fanfarra do grupo escolar desfila na rua de paralelepípedo e a cidade inteira assiste da calçada. Com pequenas variações, é esta a cena que formou a maior parte dos sopristas brasileiros.

Não é folclore: é infraestrutura. Banda de música, filarmônica, fanfarra de colégio e corporação musical foram, por gerações, a rede de ensino de música do país fora das capitais — instrumento emprestado, partitura no coreto, mestre que aprendeu com outro mestre. Do frevo à orquestra sinfônica, é impressionante a quantidade de currículos brasileiros que começam exatamente aqui.

Fanfarra do G.E.C.O. no desfile de 7 de setembro de 1971, Conceição dos Ouros (MG). Arquivos Históricos de Conceição dos Ouros, domínio público, via Wikimedia Commons.

Saxofone

furos fechados
8va
tudo aberto

II

110 cm de tubo cônico

Saxofone

Rejeitado pela orquestra para a qual foi feito, ele foi adotado por outra música — e virou a voz do século.

Nova York, outubro de 1939

O dia em que o tenor virou uma voz

Coleman Hawkins entra num estúdio, grava Body and Soul quase inteiro sem tocar a melodia, e o saxofone tenor deixa de ser um instrumento de naipe para virar um narrador em primeira pessoa. O disco vira sucesso comercial — o que ninguém esperava de três minutos de improviso sobre uma balada.

De lá para cá, o saxofone é o instrumento em que o jazz mais fala. Lester Young responde a Hawkins com o oposto: som leve, atrás do tempo, frase econômica. Charlie Parker leva o alto para uma velocidade e uma harmonia que ninguém tinha imaginado. John Coltrane toca como quem reza.

Nada disso estava no plano. O saxofone nem sequer devia estar ali.

1846

O instrumento que ninguém queria

Quase todo instrumento é resultado de séculos de ajuste anônimo. O saxofone não: tem autor, data e patente. Adolphe Sax, fabricante belga instalado em Paris, registrou-o em 1846 querendo unir duas famílias que não se falavam — o corpo cônico e a projeção dos metais com a palheta e as chaves das madeiras.

Ele projetou para bandas militares, e para lá foi. A orquestra sinfônica nunca o adotou de fato: até hoje o saxofone é convidado ocasional, não membro. O inventor passou boa parte da vida em litígios de patente que o levaram à falência mais de uma vez.

Meio século depois, do outro lado do Atlântico, um instrumento sem cânone, sem repertório obrigatório e sem tradição para respeitar caiu nas mãos exatamente certas. A ausência de regras foi a sorte dele.

Chegou ao século XX sem cânone e sem regras. Foi essa a sorte dele.

A palheta

Meio milímetro de cana

Esta é a única peça que realmente vibra, e a única descartável. Uma lâmina de Arundo donax com menos de meio milímetro na ponta, batendo contra a face do bocal e cortando o ar em pulsos.

Dura poucas semanas, custa quase nada e define quase tudo. Duas palhetas do mesmo maço soam diferente — e é por isso que saxofonista abre a caixa, testa uma por uma e joga metade fora. O rosnado de Ben Webster e a lâmina de Dexter Gordon começam aqui, num pedaço de capim seco.

A peça mais barata do instrumento é a que decide como ele soa.

O tubo

O cone muda tudo

O clarinete também é tocado com palheta simples, e mesmo assim soa e se comporta de outro jeito. A diferença está aqui: o clarinete é cilíndrico, o saxofone é cônico do começo ao fim.

A consequência é enorme. Um cone aberto produz a série harmônica completa e sobe para o registro seguinte na oitava; um cilindro fechado por palheta pula a duodécima. Por isso o sax repete a mesma digitação uma oitava acima com uma chave só, e o clarinete precisa reaprender o dedilhado ao mudar de registro.

Traduzindo para a prática: o sax é mais fácil de tocar rápido em todo o âmbito. Foi um dos motivos de ele, e não o clarinete, ter herdado o jazz depois da era das big bands.

O mecanismo

Chaves porque a mão não alcança

Encurtar a coluna de ar é simples: abre-se um furo. O problema é que os furos acusticamente corretos são grandes demais para um dedo tapar e ficam longe demais uns dos outros.

O mecanismo é a ponte entre a acústica ideal e a anatomia humana. Eixos, molas de agulha, braços e sapatilhas de couro fazem com que um dedo pequeno feche, no lugar certo, um buraco que ele jamais cobriria.

Veja as sapatilhas fechando de cima para baixo conforme a escala desce. Multiplique isso pela velocidade de um chorus de Parker e você entende por que regulagem de sax é profissão.

Nova York, 1959–1965

John Coltrane leva o mecanismo ao limite

Em maio de 1959, poucas semanas depois de gravar Kind of Blue na banda de Miles, Coltrane entra em estúdio com Giant Steps: um tema que troca de centro tonal a cada dois tempos, andando de terça maior em terça maior, perto de 290 batidas por minuto. Os dois discos saem do mesmo ano e apontam para lados opostos — um tirando harmonia, o outro colocando mais do que cabe no compasso.

O crítico Ira Gitler já tinha batizado aquilo de sheets of sound, lençóis de som: notas em densidade tal que deixam de ser ouvidas uma a uma e passam a ser ouvidas como textura. E é aqui que o mecanismo da peça anterior vira o assunto. Cada nota dessas é um evento mecânico — um braço que gira, uma mola que devolve, uma sapatilha que precisa vedar no tempo certo. As horas absurdas de estudo diário que a lenda atribui a ele não eram só disciplina: eram o treino de uma interface entre a ideia e o couro.

Depois ele faz o caminho contrário. A Love Supreme, gravado em dezembro de 1964 com o quarteto de McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, se apoia num motivo de quatro notas — o mesmo que o mecanismo está tocando agora, na tela — repetido e transposto por doze tonalidades. É o menor número de notas possível, usado com a mesma obstinação com que ele antes usava o maior.

E em 1960, em My Favorite Things, ele tira do armário o saxofone soprano, que quase ninguém levava a sério desde Sidney Bechet: o mesmo cone, metade do comprimento, uma oitava acima. No fim da vida, tocando por cima do registro previsto, com multifônicos e harmônicos forçados, ele já estava produzindo sons que nenhuma tabela de digitação prevê. O projeto de Adolphe Sax tinha pouco mais de cem anos; Coltrane achou onde ele acabava.

As horas de estudo não eram disciplina: eram o treino de uma interface entre a ideia e o couro.

Oito peças

Latão por fora, madeira por dentro

Palheta, bocal, braçadeira, tudel, corpo, mecanismo, curva e campana. É tudo latão — e mesmo assim o saxofone toca no naipe das madeiras, porque o que define a família não é o material do tubo, é como o som nasce.

É a exceção que explica a regra de classificação inteira.

A linhagem

Do bebop ao forró

Sonny Rollins provou que dava para sustentar um trio inteiro sem instrumento harmônico. Ornette Coleman jogou fora as grades. Wayne Shorter e Joe Henderson reescreveram o que um tenor podia dizer dentro de um disco da Blue Note.

No Brasil, Pixinguinha trocou a flauta pelo sax tenor na maturidade e levou o choro junto na mudança. Paulo Moura transitou entre o erudito e o popular a vida inteira sem pedir licença a ninguém.

Depois deles, Carlos Malta e Nailor Proveta mostraram que dava para tocar choro, baião e big band no mesmo instrumento sem trocar de sotaque.

E o saxofone é peça fixa do frevo e do forró: nordeste adentro, ele é tão popular quanto a sanfona, e igualmente pouco cerimonioso. Nenhum outro instrumento desta página atravessa tantos gêneros sem parecer estrangeiro em nenhum.

Retratos

A cana, o metal e a voz

Coleman Hawkins tocando saxofone tenor num clube, de olhos fechados, com um microfone antigo ao lado.

Hawkins no Spotlite, na 52nd Street, por volta de setembro de 1946 — sete anos depois de Body and Soul, no clube onde essa maneira de tocar já era o padrão que os outros tinham de responder.

A foto mostra bem a única peça que vibra: a palheta está lá dentro, escondida entre o lábio inferior e a mesa do bocal, custando o preço de um café e decidindo tudo. Tudo o mais que aparece na imagem — o cone de latão, as chaves, a campana virada para cima — existe só para filtrar o que aquele meio milímetro de cana está fazendo.

Coleman Hawkins no Spotlite, Nova York, c. setembro de 1946. Foto: William P. Gottlieb — Library of Congress, domínio público, via Wikimedia Commons.

Charlie Parker de perfil tocando saxofone alto, de terno risca de giz, com um contrabaixo ao fundo.

Charlie Parker em 1947, no auge do quinteto com Miles Davis e Max Roach. Está tocando alto, não tenor: o instrumento é menor, a mão anda menos e a escala fica mais rápida — o que importa quando as frases são estas.

Olhe a boca. O lábio inferior dobrado sobre os dentes, o queixo esticado, a bochecha firme: essa é a máquina de verdade, e ela é feita de músculo. O mecanismo que a página inteira desmonta só resolve o problema geométrico — quem decide se sai um som fino ou o som de Parker é a embocadura.

Charlie Parker, c. agosto de 1947. Foto: William P. Gottlieb — Library of Congress, Music Division (gottlieb.06851), domínio público, via Wikimedia Commons.

John Coltrane recebendo um prêmio no palco do Concertgebouw, com o saxofone tenor pendurado no pescoço e um soprano atravessado na mão, ao lado da capa do disco Giant Steps.

Amsterdã, 20 de novembro de 1961. Coltrane recebe o prêmio Edison no palco do Concertgebouw, e alguém segura ao lado dele a capa do disco premiado: Giant Steps — o tema que troca de centro tonal a cada dois tempos, gravado dois anos antes.

A foto tem os dois saxofones do capítulo no mesmo quadro. No pescoço, o tenor, com o mecanismo de chaves aparecendo de cima a baixo — eixos, braços e sapatilhas, a ponte entre a acústica e a mão. Embaixo, atravessado, o soprano: mesmo cone, metade do comprimento, uma oitava acima. Era o instrumento que quase ninguém levava a sério, e que ele tinha tirado do esquecimento treze meses antes, gravando My Favorite Things.

John Coltrane recebe o prêmio Edison pelo disco Giant Steps, Concertgebouw, Amsterdã, 20 de novembro de 1961. Foto: Dave Brinkman / Anefo — Nationaal Archief, CC0, via Wikimedia Commons.

Maestro Spok tocando saxofone num palco de rua em Olinda, com crianças fantasiadas ao fundo.

Maestro Spok no aniversário de Olinda, em 2011. À frente da Spok Frevo Orquestra, ele faz com o frevo mais ou menos o que Hawkins fez com a balada: pega uma música de função — feita para a rua andar — e improvisa por cima dela como quem assume a primeira pessoa.

É o mesmo saxofone das duas fotos anteriores, tocado a 130 passos por minuto sob o sol de Pernambuco. Vale reparar em quem está atrás: o público do frevo é a criançada de fantasia, e a orquestra toca de pé, sem estante, andando. Pixinguinha, Paulo Moura, Spok — a linhagem brasileira do instrumento passa por onde tem gente na rua.

Maestro Spok no aniversário de Olinda, 2011. Foto: Ádria de Sousa / Prefeitura de Olinda, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Trombone

posição da vara
1234567
1ª posição

III

274 cm de tubo

Trombone

Quinhentos anos sem mudar de mecanismo, e mesmo assim ele aprendeu a tocar bebop.

Nova Orleans, anos 1910

O único que precisava de espaço

As bandas desfilavam em carroças, e o trombonista era o único que precisava de espaço livre à frente para estender a vara. Sobrava para ele a tampa traseira. O estilo que saiu dali — cheio de portamentos, rosnados e respostas atravessadas embaixo da melodia — ficou conhecido como tailgate, e Kid Ory é o nome colado nessa história.

O trombone entrou no jazz pela posição física que ocupava na carroça. Poucos instrumentos têm uma origem estética tão literalmente logística.

Depois veio Jack Teagarden, que provou que dava para cantar nele com a mesma naturalidade com que se canta com a boca.

A vara

O único que não tem degraus

Pistões somam pedaços fixos de tubo; chaves abrem furos em posições fixas. Os dois trabalham com alturas discretas: existe o dó e existe o dó sustenido, e nada entre eles.

A vara não tem esse limite. Ela varia o comprimento de forma contínua, o que significa que entre duas notas existem infinitas outras. É por isso que o trombone faz glissando de verdade e nenhum outro sopro faz — os demais apenas imitam, forçando a embocadura.

É também a razão de ele ser o mais difícil de afinar. Não há mecanismo que coloque a nota no lugar: o lugar é uma memória do braço.

Não há mecanismo que coloque a nota no lugar. O lugar é uma memória do braço.

Sete posições

Por que elas ficam mais longas

São sete referências, cada uma um semitom abaixo da anterior. Mas não são igualmente espaçadas: da primeira para a segunda o braço anda alguns centímetros; da sexta para a sétima, bem mais.

A razão é que frequência cai por proporção, não por subtração. Baixar meio tom exige uma porcentagem do tubo — e a mesma porcentagem de um tubo já alongado dá mais centímetros. A escala é geométrica.

Agora imagine acertar isso na velocidade do bebop. Em 1947, J. J. Johnson começou a tocar linhas de bop no trombone com uma articulação que ninguém achava fisicamente possível num instrumento sem pistões — e reescreveu, sozinho, o que se esperava do braço direito.

J. J. Johnson reescreveu sozinho o que se esperava do braço direito.

A campana

A mesma física, o dobro do tubo

Acusticamente, trombone e trompete são quase o mesmo instrumento: lábios vibrando, tubo cilíndrico em dois terços, campana exponencial. O trombone só tem o dobro de tubo — e por isso soa uma oitava abaixo.

A campana acompanha: vinte centímetros de diâmetro, o dobro da área da do trompete. Superfície maior irradia melhor as frequências graves, exatamente as que este instrumento produz.

Vale dizer de onde ele veio, porque o contraste é engraçado: antes da carroça em Nova Orleans, o trombone passou séculos dentro de igrejas dobrando vozes de coro, e era o timbre do solene. Mozart o usa assim no Tuba mirum do Réquiem. Beethoven o tirou de lá em 1808, no finale da Quinta.

Duas metades

Por isso ele cabe no estojo

O trombone se separa em duas seções que se encaixam: a da vara e a da campana. É a única razão pela qual um instrumento de quase um metro e meio viaja numa caixa retangular.

E a vara é a peça de tolerância mais fina de toda a família dos metais. Ela desliza sobre um filme de água e lubrificante; um amassado invisível a olho nu é suficiente para travá-la. Daí a primeira regra que todo trombonista aprende: nunca se pega um trombone pela vara.

A linhagem

Do bop ao frevo

Curtis Fuller entra no Blue Train de Coltrane em 1957 e mostra o trombone como voz de frente, não como recheio de naipe. Slide Hampton e Grachan Moncur III levam o instrumento para dentro da harmonia moderna.

No Brasil, Raul de Souza levou o trombone brasileiro para o mundo, gravando com Milton Nascimento, Sérgio Mendes, Airto Moreira e George Duke — e trouxe de volta um fraseado que não era nem americano nem exatamente de mais ninguém.

Zé da Velha e Bocato seguiram por outro caminho: choro, forró e frevo tocados com o mesmo braço direito, longe do circuito de jazz e sem nenhuma cerimônia com ele.

E no carnaval de Pernambuco o trombone é espinha dorsal da orquestra de frevo: o naipe que dá o peso, o rasgo e a insistência do gênero. É o mesmo tubo do século XV, ainda ganhando repertório.

Retratos

O braço direito, em três continentes

Jack Teagarden no estúdio, com a mão no ouvido e o trombone apoiado no braço, diante de um microfone.

Jack Teagarden no estúdio da Victor, em 1947, com a mão no ouvido — o gesto de quem está conferindo a própria afinação por dentro da cabeça, e não por um mecanismo.

É a imagem exata do que o capítulo diz: num instrumento sem pistões e sem chaves, a nota não tem lugar marcado. O braço decora a distância e o ouvido corrige o resto. Teagarden cantava e tocava alternadamente na mesma frase, e a semelhança entre as duas coisas não é coincidência: os dois casos são altura contínua, ajustada de ouvido.

Jack Teagarden no estúdio da Victor, Nova York, c. maio de 1947. Foto: William P. Gottlieb — Library of Congress, domínio público, via Wikimedia Commons.

Naipe de metais tocando na rua em Olinda: trombones de vara em primeiro plano, saxofones e um sousafone atrás.

Olinda, carnaval. Três trombones em primeiro plano, varas estendidas sobre a ladeira, e atrás deles o naipe inteiro: saxofones, trompetes, um sousafone segurando o baixo.

Aqui a vara deixa de ser um problema de afinação e vira um problema de espaço — exatamente como na carroça de Nova Orleans, cem anos antes. Quem toca trombone em desfile passa a tarde negociando um metro e meio de tubo com a multidão. E o rasgo característico do frevo, aquele glissando ascendente que abre os arranjos, só existe porque este é o único sopro capaz de passar por todas as notas do caminho.

Orquestra de frevo em Olinda, 2013. Foto: Prefeitura de Olinda, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Raul de Souza tocando trombone em close, de olhos fechados, com a campana ocupando o centro da imagem.

Raul de Souza em 2018, num festival austríaco, aos 84 anos. Carioca formado na banda da Aeronáutica, ele saiu do Brasil nos anos 1960 e gravou com Milton Nascimento, Sérgio Mendes, Airto Moreira e George Duke antes de voltar — sempre com um fraseado que não era americano nem exatamente de mais ninguém.

A foto pega o instrumento pelo lado em que ele é mais fotogênico e mais mal compreendido: a campana enorme, que é só o fim da história. O que decide a nota está fora do quadro, na mão direita, a um metro dali. Raul morreu em 2021, tocando até quase o fim.

Raul de Souza no festival Inntöne, 2018. Foto: Schorle, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Onde isso continua

A fanfarra é o formato original

Nada nesta reportagem começou em sala de concerto. O trompete veio da sinalização militar e do coreto; o saxofone foi projetado para banda militar e adotado pela rua; o trombone entrou no jazz porque era o único que precisava de espaço livre na traseira de uma carroça. Os três são, na origem, instrumentos de deslocamento — feitos para soar ao ar livre, sem amplificação, andando.

É por isso que eles aparecem em tanta música diferente e quase nunca no mesmo papel. Em Nova Orleans, as bandas de sopro tocavam enterro e desfile antes de tocarem jazz, e o jazz se formou juntando o que já estava na rua: marcha militar, ragtime, blues e a levada caribenha que Jelly Roll Morton chamou de Spanish tinge. O caminho nunca foi de mão única — oitenta anos depois foi a vez de as brass bands de lá reabsorverem o funk e o hip hop das mesmas calçadas, com a Dirty Dozen e a Rebirth, e o desfile voltou a soar como a cidade em volta dele.

No Brasil os mesmos três tubos entraram por outra porta: as bandas de música das praças e dos coretos do interior, que formaram gerações de sopristas antes de qualquer escola. Delas saíram os metais que o choro carioca aproveitou, os naipes do samba e a orquestra de frevo — que nasce no carnaval do Recife cruzando a marcha das bandas militares com o maxixe e é, até hoje, música de metal tocada andando. A troca com o Norte também correu nos dois sentidos: os Oito Batutas de Pixinguinha desembarcaram em Paris em 1922, a bossa nova e o cool jazz se encontraram nos anos 1960, e trombonistas como Raul de Souza foram gravar lá — voltando com um fraseado que não era de nenhum dos dois lugares.

O HONK! é a versão contemporânea desse arranjo — e é a partir daqui que a história tem fotografia.

Multidão em volta de uma fanfarra ao anoitecer, vista do alto por entre galhos floridos, durante o Honk Fest West, em Seattle.

A primeira edição reuniu fanfarras de rua em Somerville, Massachusetts, em 2006: sem fins lucrativos, sem cachê para os músicos, sem palco, sem ingresso e sem eletricidade, produzida coletivamente, com as bandas tocando no meio do público em vez de de frente para ele. De lá a receita se espalhou por outras cidades e outros países.

Esta é uma delas, quatro anos depois: o Honk Fest West, em Seattle, fotografado do alto ao anoitecer. Não há palco na imagem porque não há palco — a banda está lá embaixo, dentro do círculo que se fechou em volta dela.

Honk Fest West, bairro de Georgetown, Seattle (EUA), 2010. Foto: Joe Mabel, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Fanfarra e público lotando um túnel em São Paulo durante o HONK! SP: uma placa escrita HONK!, uma bandeira vermelha e amarela, artistas em pernas de pau e caixas de percussão no meio da multidão.

O primeiro HONK! brasileiro aconteceu em 2016, e desde então o festival passou pelo Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Belo Horizonte entrou no mapa em 2019, com três dias de programação bancados do mesmo jeito que o festival se organiza: 147 pessoas financiaram a primeira edição numa vaquinha coletiva, que fechou em 151% da meta.

Esta é a edição paulistana de 2025, dentro de um túnel — teto de concreto, que devolve o som inteiro para quem está embaixo dele. Caixas de um lado, sopros do outro, gente em cima do viaduto olhando, e nenhum lugar marcado, porque não existe frente.

HONK! SP 2025, túnel José Roberto Fanganiello Melhem, São Paulo, novembro de 2025. Foto: ProtoplasmaKid, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

De dentro da fanfarra: o latão de um sopro carregado no ombro em primeiro plano e, à frente, as costas de um músico com uma camiseta onde se lê “quem sopra respira”.

Esta foto foi tirada de dentro da banda, não da calçada. O que se vê primeiro é o latão de um sopro carregado no ombro; depois, as costas de quem toca ao lado, com a frase que resume o assunto desta reportagem inteira — quem sopra respira.

No Brasil o HONK! caiu em terreno preparado. O carnaval de rua já era o lugar onde essas bandas existem: o bloco de sopro ensaia o ano inteiro para tocar andando, sem microfone, com a mesma formação de metais e percussão que a neofanfarra usa — e que ela herda, ao mesmo tempo, das brass bands de jazz, das fanfares francesas e das bandas de coreto daqui. Em Belo Horizonte, cidade que refez o próprio carnaval de rua na última década, a distância entre a fanfarra ativista e o bloco é quase só a data no calendário.

O Festival Internacional de Fanfarras HONK!BH acontece em 29 de agosto de 2026, de graça, nas ruas da cidade. Se você chegou até aqui desmontando os três instrumentos na tela, esta é a versão montada: os mesmos tubos, na calçada, com a acústica que eles foram desenhados para ter.

HONK! SP 2025, túnel José Roberto Fanganiello Melhem, São Paulo, novembro de 2025. Foto: ProtoplasmaKid, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Ficha técnica

Lado a lado

Nem tudo que é de latão é metal. O que define a família é como o som nasce, não do que o tubo é feito.

Lado a ladoTrompeteSaxofoneTrombone
FamíliaMetaisMadeiras (apesar do latão)Metais
O que vibraOs lábios do músicoUma palheta simples de canaOs lábios do músico
Formato do tuboCilíndrico em ~2/3, depois campanaCônico do começo ao fimCilíndrico em ~2/3, depois campana
Como muda de nota3 pistões inserem tubo extraChaves abrem e fecham furosA vara alonga o tubo continuamente
Comprimento do tubo≈ 148 cm≈ 110 cm≈ 274 cm
AfinaçãoSib — soa 1 tom abaixo do escritoMib — soa uma 6ª maior abaixoDó — lê em som real
Extensão usualMi3 – Ré6Réb3 – Lá5Mi2 – Ré5
Glissando realNão — alturas discretasSó aproximado, com a embocaduraSim — é o único
Data de nascimentoPistões, c. 1815Adolphe Sax, 1846Sacabuxa, séc. XV

Oficina

Agora é com você

Escolha um instrumento, desmonte à vontade e toque. As teclas acionam o mecanismo de verdade: cada nota mostra a digitação, a posição de vara ou as chaves que ela exige.

pistões
1 2 3
em repouso
O áudio começa desligado — navegadores exigem um clique antes de tocar som.

A W S E D F T G Y H U J · Z e X mudam de oitava A = Dó4

Espectro

A distribuição dos harmônicos é o que faz cada timbre soar diferente.

MIDI

Este navegador não implementa a Web MIDI API (use Chrome ou Edge).